Palavras do Programador

Mostra Panorama Cine Arte 2018

Marina caminha na calçada, e vento sopra forte contra seu corpo. O corpo de Marina tem tudo contra sua existência, até o vento. O filme chileno “Mulher Fantástica” venceu o Oscar e diversos prêmios, como melhor roteiro na Berlinale, prêmios Fêenix, Goya e Independent Spirits Awards.

Marina, vivida pela atriz Daniela Vega, protagoniza um filme de baixo orçamento que investe na linguagem. Sua personagem tem a identidade como força motriz de sua jornada. Foi com a premissa da busca da identidade que escolhemos, a partir de uma longa lista, os filmes da Mostra Panorama Cine Arte deste ano.

Temas tradicionais no cinema clássico como a perda da pessoa amada, a busca por um novo amor ou a sobrevivência em meio ao conflito, são retratados com o olhar da diversidade, com cada vez mais mulheres na direção e no roteiro. O mundo muda e o cinema é espelho.

A mostra abre com projeção e debate com convidados com “Mulher Fantástica” e segue com o novo longa de Lucrecia Martel, argentina considerada uma das artistas mais originais do cinema contemporâneo.

“Zama” é baseado no romance histórico do escritor argentino Antonio Di Benedetto (1956), traduzido pela cineasta por um olhar existencial com uma narrativa não-convencional que incide sobre a identidade latino-americana uma poética a ser explorada.

O filme argentino foi realizado com parcerias internacionais, com a produtora de Pedro Almodóvar (ESP) e de Vania Catani (BRA). A tônica da programação é de co-produções e identidade.

Dirigido por Lynne Ramsay, “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” traz Joaquin Phoenix em um de seus papeis mais incríveis, premiado como melhor ator em Cannes, que também laureou a diretora escocesa como melhor roteirista.

Ramsey havia lançado em 2011 o excelente “Precisamos Falar Sobre o Kevin” e surpreendeu com este seu mais recente filme utilizando da ultra violência para apresentar a jornada de um personagem com identidade fragmentada, lembrando em alguns momentos de filmes coreanos, como “Old Boy”.

Dando sequência à programação, “O Motorista de Taxi” é um filme coreano no qual um jornalista estrangeiro contrata o serviço de um taxista de Seul para levá-lo até a cidade de Gwangju. O ano é 1980 e o governo militar tomou o governo local, gerando revolta por liberdade liderada por estudantes. A situação é de conflito beirando a guerra e o taxista que nunca pensou em política tem que se virar para sobreviver.

A situação de guerra nos transporta no próximo filme “Nos Vemos no Paraíso” na Paris dos anos pós primeira guerra, num trabalho fantástico de direção e atuação de Albert Dupontel. A mise-en-scène parece forçada, fantasiosa, e é propositalmente extraordinária, de fato, como ferramenta para lidar com o absurdo da guerra.

Contemplada com o SACD Prize da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, como melhor diretora, Claire Denis proporciona em “Deixe a Luz do Sol Entrar” uma performance memorável de Juliette Binoche, no papel de uma artista madura, à procura um amor de verdade na diversidade do meio artístico em que vive na Paris contemporânea.

Acredito que desde “Os Amantes de Pont Neuf” (1991, Leo Carax) não víamos uma atuação tão brilhante da atriz francesa. E a França não tem como desconsiderar enquanto polo absoluto das co-produções internacionais de diversos filmes em cartaz.

O tema da migração para os países centrais da Europa ressoa surpreendente no filme de Fatih Akin, diretor alemão de família turca. “Em Pedaços” é a história de uma mulher que é destruída pela morte de seu marido e filho num atentado terrorista. Diane Kruger, que roubou a cena em “Bastardos Inglórios” de Tarantino (no papel da atriz-espiã Bridget von Hammersmark), cria um corpo de personagem que busca superar o absurdo da violência terrorista com a vingança.

Mais dois filmes trazem conflitos de identidade como tema. “O Insulto”, primeiro filme libanês a ser indicado ao Oscar, tem início numa discussão de rua entre um cristão libanês e um refugiado palestino, em Beirute, capital e maior cidade do país, tornando-se um conflito nacional, que chega à Suprema Corte do país. A atuação de Kamel El Basha rendeu prêmio no Festival de Veneza. O tema volta-se sobre a violência sofrida por grupos étnicos.

A questão de identidade e fronteira reverbera no próximo filme da programação, “O Orgulho”, sucesso de público na França. Dirigido por Yvan Attal, ator e diretor franco-israelense, e filho de argelinos, “O Orgulho” é protagonizado por uma estudante de origem árabe, que enfrenta numa faculdade de Direito um professor racista.

A novata Camélia Jordana dá corpo à personagem estudante que enfrenta o establishment , rendendo prêmio Cesar de melhor atriz pela atuação. No ano em que o time da França formado por jovens franceses com famílias imigrantes ganhou a Copa, é um filme-espelho que com temperado pela linguagem de humor, proporcionada além do tema de identidade, outras reflexões.

E é no filme suíço “Mulheres Divinas” que esse espelho proposto na Mostra Panorama se faz evidente. Dirigido pela cineasta Petra Volpi o tema dos direitos das mulheres para votar nos anos 1970 (acredite!), numa pequena cidade da Suíça, é transformado em situações às vezes cômicas, às vezes tragicômicas. A elogiada  narrativa ganhou prêmio de escolha de público do Tribeca Film Festival, entre diversos outros.

E para não perder a oportunidade de representar o cinema de gênero, em franco crescimento de produção e público, vem do Japão o inclassificável “Antes Que Tudo Desapareça”. A sinopse é assim: Três alienígenas viajam para a Terra em uma missão de reconhecimento para preparar uma invasão em massa. Tendo tomado posse de corpos humanos, os visitantes roubam dos hóspedes a essência do seu ser e senso de justiça. Imperdível, né?

A relação do corpo e da identidade se faz presente. E nessa percepção que não podíamos deixar de projetar e conversar sobre “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, premiado no Festival do Rio e de Locarno (SUI). É um filme de terror? Uma fábula? Um roteiro mega elaborado para surpreender o público? Vamos assistir e conversar sobre o que o público acha?

Glória, interpretada por Grace Passô, e Camila, vivida por Joana de Verona, são as personagens principais de “Praça Paris”, filme da carioca Lúcia Murat. Passô, atriz e dramaturga negra – de nível estratosférico, foi premiada por sua atuação no Festival do Rio e no FEStin de Lisboa (Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa).

A trama, vencedora do Prêmio Dom Quixote de Melhor Filme no Festival de Havana, traz a violência e a desigualdade social e suas consequências, no coração do Rio de Janeiro.

Na sequência da programação a identidade fecha um ciclo temático, com o francês “A Raposa Má”, vencedor do Prêmio Cesar de Melhor Filme de Animação. A raposa má, em crise, acredita ser na verdade um frango. Já o coelho pensa ser uma cegonha. E o pato sonha em substituir Papai Noel. Uma diversidade de cinematografias buscam no tema identificar outros (e novos) olhares na tela do cinema.

A identidade da personagem Marina do filme chileno, e Don Diego de “Zama”, oficial espanhol que espera transferência de Assunção (PAR) para Buenos Aires (ARG), é tão cinemática quanto a estudante árabe Neila, a paciente carioca Glória, a esposa e dona de casa suíça Nora, a enfermeira da periferia Clara, e a artista parisiense Isabella, todas personagens que tem mais em comum do que se pode imaginar além das diferenças de língua e país.

Para finalizar com grande estilo, a animação “A Tartaruga Vermelha”, co-produzida pelo mítico estúdio japonês Ghibli, dá o tom de força e delicadeza à programação, com uma história de um náufrago, sua família e a natureza, pontuada com maestria nos sons, sem qualquer diálogo. A língua falada é do cinema puro, com identificação direta com todos os públicos. Imperdível.

 

Pedro MC

Cineasta e Co-Programador da Mostra Panorama 2018